Com um ritual silencioso, encerro aqui este mês. Fecho a porta destes dias que me atravessaram. Dias de tempestade, de perguntas sem resposta, de esperas longas e despedidas difíceis. Dias que me ensinaram que nem toda dor vem para destruir; algumas vêm para revelar. Hoje eu solto. Solto os pesos que carreguei além da conta. Solto os vínculos que já cumpriram seu papel. Solto as histórias que insistiam em permanecer abertas dentro de mim. E peço o mais sincero e profundo perdão a todos que, de alguma forma, foram tocados pelos ventos que me habitaram nos últimos meses. Fiz o que pude. E talvez eu tenha podido muito pouco. Talvez minhas mãos cansadas não tenham alcançado tudo o que eu gostaria de salvar. Talvez minhas forças tenham sido menores do que as circunstâncias exigiam. Mas, ainda assim, entreguei o que tinha. Entreguei a verdade que eu conseguia sustentar naquele momento. Entreguei presença quando pude, coragem quando encontrei e amor mesmo quando ele parecia insuficiente. Não ...
Hoje a minha gata derrubou um livro da prateleira. Não foi qualquer livro. Caiu justamente aquele que virou meu amuleto desde que o Rafael morreu: “A ridícula ideia de nunca mais te ver” , da Rosa Montero. Esse livro, que eu ganhei da prima do Rafael (que no meu coração sempre vai ser também a minha prima Nat) me acompanhou pelas ruas mais tortas do luto. Ele andou comigo quando eu mal conseguia andar sozinha. Tem um trecho em que a Rosa fala de Fernando Pessoa, daquele verso em que ele diz que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E então ela emenda: “talvez o escritor seja um sujeito mais ou menos louco, incapaz de sentir a própria dor se não fingir, ou se não construí-la com palavras. Com essas palavras que se combinam, que se completam, que nos consolam, que nos tornam minimamente calmos e conscientes de que ainda estamos vivos”. Eu li e pensei: é isso. É exatamente isso que eu faço aqui, neste blog. Aqui eu finjo a d...